A partir da segunda metade do século XX, a universalização do acesso à Educação Básica ao redor do mundo impôs o desafio de desenvolver processos de ensino-aprendizagem no interior de um contexto em que a escola deixou de ser um privilégio e constituiu-se como um direito, ampliando o número e a diversidade de estudantes. A obrigatoriedade da Educação Básica representou o imperativo de crianças, jovens e seus professores compartilharem um espaço-tempo de ensino, aprendizagem e convivência com certo grau de uniformidade, a despeito das particularidades de cada sujeito e da diversidade coletiva (Esteve, 2004).
Essa nova realidade, que caracteriza a terceira revolução educacional (Esteve, 2004), deflagrou os limites e contradições das práticas pedagógicas tradicionais, que apresentavam algum grau de eficiência na estrutura de transmissão-exercitação-verificação de conhecimentos e no cumprimento de normas aplicada a grupos mais homogêneos, mas que excluía alunos que não se adequavam a ela.
Neste início do século XXI, os desafios forjados pela terceira revolução educacional, antes de terem encontrado solução definitiva, são atualizados e a eles se conjugam as demandas e contradições deflagradas pela revolução digital, tais como o acesso a informações em volume e velocidade inéditos; a dissolução de fronteiras entre as esferas pública e privada; e as mudanças no modo de produção e no mundo do trabalho. Tais desafios, que, para Araújo (2011), caracterizam a quarta revolução educacional, provocam educadores a repensar a função social da escola, os objetivos e as práticas pedagógicas, os tempos e espaços de aprendizagem.
Na entrevista que se segue, José Sérgio de Carvalho, professor titular de Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo, defende que a escola moderna é (e deve continuar sendo) um espaço-tempo cujo traço distintivo não é o aprendizado de conhecimentos acadêmicos. Para ele, diferentemente de outros ambientes em que o aprendizado é possível, a escola é o lugar no qual se concede às novas gerações um tempo para que possam forjar sua própria existência e seu modo de inserção no mundo mediante uma experiência que não reproduz (ipsis litteris) a sociedade e que suspende as determinações sociais e familiares sobre as crianças e adolescentes. É na escola que a criança se converte em aluno e, como tal, torna-se igual aos demais; é onde é exposta à pluralidade, visita outros mundos, expande seu campo de possibilidades, entre outras experiências e aquisições sobre as quais o autor discorre nesta entrevista.
Para José Sérgio de Carvalho, a sala de aula e os professores desempenham um papel fundamental nessas e em outras características que constituem a experiência escolar (ou processo de escolarização) e que fazem da escola uma instituição formativa única e insubstituível. No contexto dessa discussão, o autor afirma as diferenças entre a escola, as redes sociais e outros ambientes de convivência e aprendizado, e contesta projetos políticos como a escola sem partido e o homeshooling.
José Sérgio de Carvalho é professor titular de Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo. Foi pesquisador convidado da Universidade de Paris VII e da Universidade de Paris VIII, onde desenvolveu pesquisas sobre os vínculos entre política e educação nas obras de Hannah Arendt e Jacques Rancière. Professor Convidado da Universidade de British Columbia, em Vancouver (Canadá) e integrante do Grupo de Pesquisas "Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória". Atualmente desenvolve pesquisas em hermenêutica e educação e educação e emancipação. É autor dos livros Educação: uma herança sem testamento – Diálogos com o pensamento de Hannah Arendt (2017); Por uma pedagogia da dignidade – Memórias e reflexões sobre a experiência escolar (2016); Reflexões sobre educação, formação e esfera pública (2013); Educação, cidadania e direitos humanos (2004), entre outros.
ENTREVISTADOR. Desde a constituição da escola moderna, a sala de aula é a unidade primária de espaço-tempo em que se estabelecem as relações de ensino-aprendizagem formal. No entanto, outros ambientes de aprendizagem têm sido, já há um tempo, reivindicados e utilizados nas práticas escolares, tais como a comunidade do entorno da escola. Mais recentemente, vemos um debate sobre o ensino remoto mediado por tecnologias digitais e o homeschooling, em alguns casos colocando em xeque a necessidade da sala de aula como espaço-tempo de aprendizagem.
Quais são a necessidade e o papel da sala de aula na atualidade?
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Então, vou começar com uma observação lateral que pode até parecer um certo preciosismo, mas é algo central, pois diz respeito a essa ideia de que a sala de aula seria o elemento nuclear e primário da experiência escolar. E me parece que não. A sala de aula é um pedaço importante, sem a menor sombra de dúvida, mas um pedaço de algo maior, de uma experiência muito mais vasta, que eu vou chamar aqui — e vou tentar justificar — de experiência escolar.
A escola tem sido e permanece sendo para nós algo que configura a nossa personalidade, que faz a gente ser quem a gente é e que opera uma série de rupturas absolutamente fundamentais no processo de subjetivação de uma pessoa. Acho que a primeira grande ruptura que a experiência escolar nos traz, e não apenas a sala de aula, é a transformação de uma criança em um aluno. Toda e qualquer sociedade tem crianças; só sociedades escolarizadas, e não a sala de aula, é que transformam uma criança em um aluno. Você pode falar que esta é meramente uma questão nominal — a criança ali é considerada aluno —, mas não é bem assim.
Transformar uma criança em aluno significa retirá-la daquela desejável, mas também aprisionadora, relação privada e familiar ditada pelos laços do sangue, do afeto, pelos lugares fixos, para introduzi-la em um outro lugar, uma outra forma de viver. Vou pegar alguns exemplos bastante banais. Ao transformar alguém em um aluno, a escola opera um tipo de igualdade que, até então, era absolutamente desconhecida. Se você é o filho de uma família, então você já nasce com um lugar predeterminado, o de filho. Mais do que isso, se você é o filho mais velho, você tem um papel, se é o filho mais novo, você tem outro. Esses laços te dizem mais ou menos quem você é e o lugar que você ocupa naquela família, e estão restritos aos laços de sangue e familiar. Isso é muito importante na nossa constituição como pessoa, na segurança física etc. No entanto, ao adentrar uma escola, você deixa de ser o filho mais velho, que tem que assumir as responsabilidades, para se tornar um aluno. Você tem, portanto, a chance de recomeçar uma existência a partir de um lugar que até então não era possível, porque os lugares estavam hierarquizados. Esse é o primeiro ponto fundamental.
Um segundo ponto fundamental é que a experiência escolar, sobretudo experiências escolares em sistemas públicos de educação abrangentes, significa pela primeira vez uma certa exposição à pluralidade, e não a extensão dos valores da família. Então, por exemplo, do ponto de vista religioso, a escola é o único lugar onde um menino de uma família tradicional judaica poderia estar em contato com alguém da umbanda, com um ateu, com um cristão e, mais do que estar em contato, esse contato ser mediado por uma instituição pública que tem o dever de garantir — e tem que garantir — que eles sejam respeitados, embora não necessariamente gostem uns dos outros.
Portanto, temos aqui a ideia de uma expansão da experiência humana muito grande. Para além desses fatores, tem uma coisa muito simples: o pertencimento a uma instituição escolar significa, em alguma medida, um exercício de escolha e ajuizamento. Você não escolheu quem são seu pai, sua mãe, seus irmãos, mas você, na escola, escolhe quem são os seus amigos, que podem ser de outras classes sociais, ter outros credos religiosos, outras origens étnicas.
Enfim, essa primeira ruptura é de uma ampliação do domínio das relações, que vai para muito além da sala de aula. A escola significa recreio, trabalho em grupo na casa das pessoas. A experiência escolar significa você se apaixonar por alguém que seria inusitado, que não pertence ao seu meio, que não tem os mesmos credos. Portanto, a experiência escolar nos introduz na pluralidade como marca da vida humana, de uma vida humana feita por seres absolutamente singulares, que não precisam se fundir num todo, mas precisam aprender a viver juntos uns com os outros.
A experiência escolar é também uma grande experiência de liberdade, por essas mesmas razões. Uma experiência de liberdade porque é muitas vezes na escola que você sai do lugar de criança para se transformar em aluno, que sai de um convívio restrito para um convívio mais amplo, que você pode operar uma certa desidentificação, um processo de subjetivação no qual você é capaz de superar algo que lhe foi dado e conquistar um lugar que lhe é muito próprio. Por exemplo, é na escola que o filho do traficante da comunidade lê poesia. A poesia não é algo que a gente identifica como próprio para uma comunidade violenta, mas se você está numa comunidade e leu uma poesia na escola, você retira a ideia de que a poesia é própria para certas pessoas e não para outras. Então, o pertencimento a uma instituição escolar significa a possibilidade. Não necessariamente isso acontece, mas significa a possibilidade de desidentificação das pessoas com lugares previamente marcados: quando o filho do traficante não é filho do traficante, ele é um aluno; quando o filho do comerciante rico daquela comunidade não é filho do comerciante, mas é um aluno; quando o filho daquela mulher que é iletrada não é filho de uma analfabeta, é um aluno. E, na qualidade de aluno, ele tem a possibilidade — o que não quer dizer que ele vai fazer isso, que ele vai querer isso — de fazer uma disjunção entre o que ele vive aqui agora e o seu passado.
Não fosse a experiência escolar, todas as crianças estariam fadadas, provavelmente, à mera reprodução da profissão do seu pai, do seu lugar social, de um modo de vida. Ora, é na escola, portanto, que eu tenho condições de estar no meio dessa pluralidade de professores, de alunos, de experiências da educação física, de experiências de arte, e sou capaz de descobrir algo que até então não me era familiar.
ENTREVISTADOR. Você considera que é necessário redefinir a sala de aula? E aproveito para acrescentar outra pergunta, que, em parte, me parece que você já respondeu: no que a sala de aula se distingue de outros ambientes de aprendizagem, estejam dentro ou fora da escola?
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. A sala de aula precisa de uma de redefinição? Claro, toda e qualquer tradição viva precisa, senão ela não permanece viva, só permanece idêntica.
Agora, o que há de específico numa sala de aula, aqui há uma coisa muito linda. A sala de aula é um lugar que se separa da lógica da vida. E é bom que assim seja. Eu não sei por que algumas pessoas gostam tanto que a escola seja uma cópia, uma extensão do mundo tal como ele é. A não ser, claro, que você creia que este mundo no qual vivemos seja tão maravilhoso que não seria o caso de fazer um parêntese e falar “aqui vige outra regra”. Então, o espaço da sala de aula é um espaço no qual o mundo da gente — por exemplo, no caso do Brasil, marcado pela violência — pode ser um mundo mediado pela palavra, como oposição ao mundo marcado pela violência. Em um mundo no qual quem manda é o valor de troca, do dinheiro ou do uso, a sala de aula é o lugar onde cabe poesia. Qual é o uso da poesia? Ela não tem uma utilidade prática imediata na vida, mas ela tem um lugar na sala de aula.
E, mais do que isso, a sala de aula é o lugar no qual o erro cabe, que nos permite refazer, recomeçar. Aprende-se a mexer em um motor em uma oficina que forma mecânicos e se aprende a mexer em um motor na sala de aula, em uma aula de mecânica. Qual é a grande diferença da sala de aula? Se você for um aprendiz na oficina, você não pode errar. Se errar na colocação de uma peça, tem que pagar por ela. Na sala de aula, não. Se o aluno erra, o professor fala: “Faz de novo”. Ele erra e o professor fala: “Faz de novo, tenta, você é capaz”.
Agora, claro, ela está no meio do mundo. Ela cria uma certa autonomia em relação ao mundo, mas dialoga com o mundo e, nesse sentido, é claro que ela não pode ignorar o que está acontecendo no mundo. No entanto, acreditar que a sala de aula teria que acompanhar um ritmo que não é o da escola é deixar-se levar por uma universalização do particular. O que eu quero dizer com isso? No nosso mundo tecnológico, as coisas se transformam em obsoletas muito rapidamente. Esse celular que eu tenho há dois anos já está obsoleto. Agora a sala de aula é um lugar no qual um romance escrito há 50 anos ou uma peça de teatro escrita há 500 ou uma tragédia escrita há 2.500 anos continuam valendo. A sala de aula não é só o que boia na superfície do presente, é o que tem valor. Que outro espaço social que não a escola — talvez alguns espaços de arte — são capazes de promover em nós esse pertencimento ao tempo, independentemente do modismo?
A outra coisa é o tempo da sala de aula. Onde tudo tem que ser muito rápido, apressado, a sala de aula pode ser lenta, ela pode ter um ritmo próprio. Então eu acho que essas inovações podem ser muito bem-vindas, desde que não destruam aquilo que é específico da experiência escolar e da sala de aula como um dos elementos da experiência escolar.
ENTREVISTADOR. Chamou minha atenção a sua contraposição à ideia da sala de aula como unidade primária de espaço-tempo das relações de ensino-aprendizagem. Claro que afirmar isso não significa ignorar que a experiência escolar é muito mais ampla do que a sala de aula. Há, além da sala de aula, a interação dos estudantes em outros espaços, há uma cultura escolar que se constitui pelo conjunto de práticas curriculares e não curriculares, na qual as salas de aulas estão inscritas. Portanto, não significa dizer que ela é o cerne da escolaridade.
Mas o enunciado inicial da primeira pergunta passava por essa definição justamente por considerar que a sala de aula é um espaço em que as relações de ensino-aprendizagem se estabelecem de forma intencional, mais direta e com mais permanência e sistematicidade do que em outras experiências escolares, tendo em vista que a maior parte do tempo que o aluno passa na escola, ele passa em uma sala de aula. E não se trata de uma experiência uniforme, pois há trocas entre professores, o contato com diferentes pontos de vista, diferentes áreas do conhecimento e experiências de ensino-aprendizagem. No entanto, tudo isso acontece predominantemente nesse espaço-tempo não só material, mas simbólico, que é a sala de aula.
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Quero chamar a atenção para o fato de que, embora essa posição seja quase um consenso, eu tenho uma posição dissensual em relação à maior parte dos meus pares, inclusive no campo da Filosofia da Educação. Eu sequer creio que a grande questão da escola, da invenção da escola e sobretudo do desenvolvimento da instituição escolar moderna não tenha a ver com aprendizagem. A experiência é muito maior, é muito mais marcante em relação a outra experiência que não a da aprendizagem. Essa outra experiência está contida na própria noção da palavra scholé, que vem do grego e significa tempo livre.
Tempo livre aqui não quer dizer um tempo de desocupação, quer dizer estritamente o tempo que você está liberado de ter que participar da própria produção da subsistência. Vou dar um exemplo muito simples, um anterior e um atual. Meus avós paternos eram imigrantes portugueses analfabetos, não porque fossem pouco inteligentes ou tivessem pouca capacidade de aprendizagem. Minha avó, por exemplo, desenvolveu uma escrita própria porque ela administrava uma quitanda em um bairro periférico suburbano de São Paulo e tinha cadernetas, que as pessoas iam comprando e só pagavam no final do mês. Ela fazia uma escrita que era quase ideográfica, ela tinha uma marca para cada pessoa e aprendeu os números. Era uma pessoa com extrema capacidade de aprendizagem, mas não tinha tempo livre, porque a minha avó, aos 5 anos de idade, cuidava de ovelhas, cortava o seu pelo, fazia cobertores, plantava, cuidava de tudo. Portanto, não tinha tempo livre. A situação da scholé significa garantir a todos tempo livre para se constituírem como pessoas, num tempo em que não precisam lutar pela sobrevivência.
A escola, mais do que tudo, é uma experiência existencial, de ter um tempo para si. Para ter experiências, experiências que vão te informar, para ter uma troca de experiências. A escola é sobretudo um lugar onde há uma transmissão intergeracional, não é o mero aprendizado de viver, de coisas úteis, é onde as gerações se encontram e podem passar umas às outras o que aprenderam. Não que as outras gerações vão repetir, a gente nunca é uma repetição do passado, mas a gente nunca começa do zero. Então, é nesse sentido que eu falo que escola é mais que uma sala de aula, é a transmissão de experiência, mais do que aprendizagem.
ENTREVISTADOR. A revolução digital trouxe consigo a ampliação das trocas entre os conhecimentos, visões de mundo e costumes de diferentes culturas e grupos sociais. As redes sociais, nesse contexto, têm sido um palco de intercâmbios, debates e disputas sobre moralidade, política, entre outros temas de importância pública. Durante muito tempo a escola foi, para crianças e adolescentes, o principal espaço de socialização e convivência com o diferente. Isso mudou?
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Vou começar com uma observação sobre as redes sociais. Eu concordaria muito com você que as redes sociais são lugares de disputa. Tenho as minhas restrições de imaginar que elas sejam um lugar de intercâmbio. E as redes sociais operam em uma lógica completamente distinta da escolar. As redes sociais operam pela lógica da identificação, pois te dão mais do mesmo. Ora, a grande chance que a escola oferece — não necessariamente, mas potencialmente — é, como eu te dizia, de desidentificação. O que é desidentificação? Oferecer a possibilidade de você habitar um outro mundo com o qual inicialmente não se identifica. As redes sociais te mandam conversar com os semelhantes.
Vou pegar um exemplo. Minha filha, muito recentemente, ao ler Harry Potter, chegou numa determinada tarde com os olhos cheios de lágrimas, chorando, literalmente, e falando: “Pai, eu preciso ler esse pedaço”. É um pedaço em que um dos amigos mais próximos de Harry Potter havia encontrado o seu pai e sua mãe, que haviam sido torturados não até a morte, mas até a completa desfiguração como pessoa. Eles perderam toda a memória, viraram um organismo vivo sem nenhuma identidade. Eu te pergunto: ela não sabe que é uma ficção? Sabe, ela sabe o que é uma ficção e que o mundo dos bruxos não existe. Mas por que ela chora? Ela chora porque ela vive esse outro mundo, e quando ela volta desse outro mundo, percebe que naquele mundo existiam os comensais da morte, e que nesse mundo que ela vive os nossos tiranos se alimentam da morte. Ela percebe que a resistência de lá era feita numa casa que chamava-se “a ordem de Fênix”, esse pássaro que levanta voo, mas ao fim do dia se queima, vira cinzas e amanhã volta a levantar voo, como todos nós, que lutamos contra qualquer regime totalitário. Passamos a vida nisso e quando a gente acha que nunca mais vai voltar, ele volta. Tal como o Valdemort, o vilão, que é quase destruído, que não tem mais corpo, mas sobra alguma coisa que entra num outro corpo, revive e nós somos obrigados a lutar.
A escola nos apresenta esses mundos que não são necessariamente os mundos com os quais nos identificamos imediatamente, mas que nos propiciam justamente a capacidade de voltar para esse nosso mundo e dar um novo sentido, porque a gente passou por uma outra experiência, e uma experiência pela qual muitas vezes não teríamos passado se não fosse a escola.
Então, a lógica das redes sociais é dar para você aquilo que você quer para consumir. A rede social vive de likes. Se eu for fazer a escola trabalhar como uma rede social, vou querer medir quantos likes têm os professores. Ocorre que muitas vezes a gente só descobre que um professor é fundamental na nossa vida dez anos depois.
ENTREVISTADOR. Muito embora você já tenha passado por essa discussão, eu gostaria que você explorasse mais a seguinte pergunta: no que a internet e as redes sociais se aproximam ou se diferenciam da escola quando pensamos na educação em valores e para a cidadania?
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho que essa resposta se encontra no sentido da escola e de um professor, sobretudo de um professor que encara o significado público que toda escola tem — inclusive a escola privada, pois a escola privada é uma concessão pública. Os valores que guiam a educação não são valores individuais, subjetivos. Uma escola até pode ter os próprios valores, mas eles não podem se confrontar com os valores públicos que regem a nossa ordem constitucional. E o professor, ali, representa esses valores. E, nesse sentido, a experiência escolar é importante para o cultivo desses valores justamente porque existe alguém ali que encarna e faz essa mediação, de tal forma que certas coisas que são possíveis nas redes sociais devem ser impossíveis na escola, por exemplo, todas as falas de ódio, todas as falas de discriminação racial. Um professor que cumpre esse seu papel público interfere diretamente.
Então, por exemplo, um menino que faz uma fala racista com 5 anos de idade. Eu tenho que ir lá e intervir: “Não, meu caro, aqui não pode ser assim”. Se repete isso aos 7 anos, eu vou repetir que não pode ser assim, aos 10 eu vou continuar repetindo e aos 17, no terceiro ano do Ensino Médio, eu vou dizer a mesma coisa. Quer dizer, a scholé, como tempo de formação, me indica isto: eu ainda não considero aquele sujeito formado, não importa se ele é ou não é racista, eu não considero. Aos 18 anos, na praça pública, se ele pratica um ato racista, eu chamo a polícia e abro um boletim de ocorrência; acabou a formação, acabou a scholé, o tempo. Agora responda pelos seus atos. A scholé tem a ver com isso, com o tempo que fala assim: “O mundo é tão complexo, que eu estou operando na sua formação, você ainda não responde plenamente pelo mundo”.
E um outro papel é o do ajuizamento. Não é de pouca importância você habitar outros mundos. Olha, você consegue viver essa experiência e, portanto, ajuizar de um ponto de vista muito mais alargado, considerando o outro. Isso é fundamental na ordem da cidadania.
E também há as práticas. Ética vem do grego e quer dizer costume, hábito. Em uma passagem da Ética a Nicômaco, Aristóteles (2009) fala que as virtudes morais, assim como as virtudes intelectuais, são disposições do espírito. E disposições são como uma segunda natureza que nós adquirimos pelo exercício. A frase dele é “tornamo-nos construtores de barcos construindo barcos e assim também tornamo-nos homens justos e sábios praticando ações justas e sábias”. É menos o que a escola fala. Uma escola para a cidadania é um ambiente público escolar para a cidadania. É um ambiente que garante, por exemplo, a igualdade no tratamento dessas pessoas. Não precisa falar da igualdade, é realizar esse espírito, esse exercício da igualdade. Por isso não só o discurso dos professores, mas as práticas são fundamentais. E, claro, de novo, as redes sociais são pautadas pelo espírito da distinção, da diferença, é sobre o que eu consumo para me diferenciar do outro.
ENTREVISTADOR. Voltando ao tema da revolução digital, as crianças e jovens têm acesso fácil e quase imediato a um grande volume e a uma diversidade de informações, incluindo aulas e tutoriais disponíveis na internet. Tal fato tem reforçado o argumento das perspectivas pedagógicas que se opõem ao dito “ensino tradicional”, segundo as quais o professor deve ser menos um transmissor de conteúdos e mais um mediador na construção de competências como a autonomia e o pensamento crítico. Mas também é possível questionar se a seleção de materiais, objetivos e metodologias, assim como a autoridade dos professores sobre os alunos, que caracterizam o modus operandi da maioria das escolas — incluindo aquelas que se opõem ao “ensino tradicional” —, não representariam um entrave à construção da autonomia e do pensamento crítico.
Como você vê o papel dos professores nesse contexto? Na sua perspectiva, como autonomia e pensamento crítico devem ser concebidos na relação professor-aluno?
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho que tem várias coisas a se falar. A primeira é essa questão de crer que a formação do espírito crítico dependeria da disponibilidade da informação. Não é apenas a transmissão de informações e o desenvolvimento de capacidades e habilidades, até porque tem-se uma enorme massa de informações na internet, dentre as quais informações non sense e fake news. A questão é a gente ser capaz de ajuizar o que faz ou não sentido e se uma informação é ou não verdadeira. E a escolarização tem um papel fundamental nisso.
O segundo ponto diz respeito à transmissão. Eu queria só deixar claro que essa palavra é uma palavra que se tornou maldita no vocabulário pedagógico e uma palavra que eu adoro. Por quê? A transmissão tem sido equacionada ou equiparada à comunicação que transcende o espaço. Essa comunicação nós temos em comum com os bichos, mas nenhum deles transmite saberes, valores, princípios e condutas ao longo do tempo. A transmissão simbólica não transcende o espaço, transcende o tempo. Então, escola é transmissão, sim, não é simples comunicação. Mas ela é transmissão de uma herança simbólica e o papel do professor é, sim transmitir, não é simplesmente comunicar. As redes comunicam, os professores transmitem e há aí uma clara diferença.
Quanto à questão da formação do espírito crítico, eu gosto que você traga essa questão porque esse é um consenso vazio das nossas escolas. A partir dos movimentos de rebelião de 1968, todas as escolas adotam o vocabulário do formar um aluno crítico. Ocorre que essa expressão padece de uma anemia semântica, não quer dizer mais nada, perdeu completamente o sentido. As escolas devem querer formar um aluno crítico. Agora, o que cada uma dessas instituições crê que seja o espírito crítico e como fomentá-lo? Bom, aí o que era consenso vira uma profunda divergência, certo?
O criticismo tem a ver com uma atitude, não com conteúdo. Ele tem a ver com essa capacidade que nós temos de pôr em questão o que até certo momento era evidentemente fora de questão. E a pergunta então é: como se transmite esse espírito crítico? Me parece que não há outro jeito a não ser convivendo com quem o tem e encontrando sua própria maneira a partir dessa referência. Há uma frase do Michael Oakeshott, um filósofo inglês do século XX, que diz: “Não é o grito, mas é o voo do pássaro que faz com que o bando o siga”. Ou seja, são as práticas críticas de um professor que fomentam em seus alunos um espírito crítico, não é o conteúdo, não é a metodologia, não é a técnica; são as pessoas, é a convivência com as pessoas. E não há outro lugar para se conviver com tantas pessoas quanto as escolas, sobretudo as públicas, que acolhem as pessoas por um concurso público, que não importa qual seja a sua religião, sua origem social, você passou e eu terei condição de conviver com essa pluralidade de seres humanos absolutamente singulares.
Por último, mas ligado a isso, tem a questão da autonomia, que também virou um chavão escolar, né? E, claro, o que a gente quer sempre é formar alguém autônomo, que faça por si mesmo o seu soneto, que faça uma interpretação ao piano que é própria. O problema é que esse é o objetivo, mas como é que eu chego lá? Eu não sei direito, mas posso dizer o seguinte: eu não posso tomar o objetivo com um ponto de partida. Guimarães Rosa, por exemplo, é um cara que teve uma capacidade crítica e autônoma no trato com a língua portuguesa invejável, inventa coisas fenomenais. Para te dar um exemplo banal, a palavra “só” em português tem o mesmo significado que na maior parte das outras línguas. Mas a gente inventou uma coisa linda chamada “sozinho”, e veja que o “sozinho”, para além do desacompanhado, dá uma ideia de abandono, só que pouco a pouco a nossa língua acabou equiparando “sozinho” e “só”, como se fossem a mesma coisa. Aí o Guimarães inventa a expressão “sozinhoinho”. Você percebe o que ele faz? Ele cria. Agora, ele só pode criar sobre uma língua que ele aprendeu sem ter pedido, à qual ele se dedicou, que ele conhece profundamente e aí ele está em posição de criar.
Portanto, não há necessariamente nenhum tipo de contraposição entre uma coisa e outra. Autonomia é um ponto de chegada. Agora, postular como um ponto de partida, dizer que a criança já é autônoma? Sim e não, mas, no geral, não. Você pode fazer uma dialética entre dar um pouco e soltar. Essa é uma questão muito particular que cada um na sua sala de aula vai colocar, mas acho sempre bom a gente expressar que autonomia é o ponto de chegada, que esse ponto de chegada pressupõe necessariamente a aceitação de algo que nós não escolhemos.
ENTREVISTADOR. Concordo com a ideia de que o pensamento crítico e a autonomia tornaram-se chavões e que é incontornável que a escola e os educadores façam escolhas que não passam pelo consentimento dos estudantes, por exemplo, sobre quais valores irão orientar a formação ética e moral, pois nem todos são igualmente legítimos quando se trata de responder às necessidades e desafios de compartilhar o mundo com outras pessoas. Por outro lado, na minha perspectiva, tanto a autonomia quanto o pensamento crítico passam pela oportunidade de transitar por diferentes mundos, por ampliar as referências e contrastá-las e, assim, alargar o campo de possibilidades para a constituição da identidade e inserção no mundo.
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho essa observação bem importante, em dois sentidos. O primeiro está relacionado a uma pergunta que você fez em que cita o homeschooling. Então, veja, a primeira grande questão é a seguinte: todo mundo tem uma ideia sobre como se desenrolou a história do Brasil, sobre a sua colonização, escravidão etc. O homeschooling significa você estar preso à visão que os seus pais têm. Se você vai para escola, não tem como. Se você tiver cinco professores de história, você não vai ter cinco que pensam a mesma coisa. Só a loucura dos entusiastas da “escola sem partido”, que acham que há um monobloco ideológico. A pluralidade de visões é uma propriedade da instituição escola, não do indivíduo professor, sobretudo, eu insisto, da instituição escolar pública.
Acho que isso é fundamental e que isso é próprio da escola. São poucas as instituições que proporcionam isso. Você não pode esperar isso da igreja, não pode esperar isso do exército. É outra lógica de funcionamento. Então, uma coisa que eu sempre falo é a seguinte: vocês mandam lá nas igrejas, mandam no exército, agora não venham militarizar a escola. Eu não vou academicizar a formação de cadetes. Não seria plausível que quando um general, no meio da guerra, dissesse “Atacar!”, alguém levantasse a mão e falasse: “Eu gostaria de discutir o pressuposto”. É isso que eu espero do aluno, não é o que o general espera do soldado. Então, deixa a gente aqui na escola porque aqui vige outra lógica.
ARAÚJO, U. A quarta revolução educacional: a mudança de tempos, espaços e relações na escola a partir do uso de tecnologias e da inclusão social. ETD - Educação Temática Digital, Campinas, SP, v. 12, p. 31–48, 2011.
U ARAÚJO A quarta revolução educacional: a mudança de tempos, espaços e relações na escola a partir do uso de tecnologias e da inclusão socialETD - Educação Temática DigitalCampinas, SP1231482011