Recebido: 17.06.2024 Aprovado: 05.04.2025  
ISSN on-line: 2238-0302  
DIÁLOGO COM EDUCADORES  
Identidade, emancipação e formação ética no contexto  
escolar. Ou, por que a escola é insubstituível no século XXI?  
entrevista com José Sérgio de Carvalho  
Identity, emancipation and ethical formation in the school context. Or, why is  
school necessary in the 21st century? - interview with José Sérgio de  
Carvalho  
Identidad, emancipación y formación ética en el contexto escolar. ¿Por qué  
la escuela es insustituible en el siglo XXI? - entrevista con José Sérgio de  
Carvalho  
Marco Antonio Morgado da Silva1  
Resumo  
O objetivo desta entrevista é apresentar as reflexões do professor José Sérgio de Carvalho sobre o papel  
da escola na educação do século XXI, em um contexto no qual as mudanças sociais provocadas pela  
revolução digital suscitam um amplo debate sobre a função, a estruturação e até mesmo a necessidade  
da instituição escolar. Professor titular de Filosofia da Educação na Universidade de São Paulo, José  
Sérgio de Carvalho afirma que o que faz da escola uma instituição absolutamente necessária e  
insubstituível não é tanto a aprendizagem que pode se dar em outros ambientes quanto outros  
atributos formativos que nem a família nem a sociedade são capazes de proporcionar. Para ele, a  
escolarização dá aos sujeitos, entre outras coisas, a oportunidade de ampliar seu campo de  
possibilidades para a constituição de si e inserção ética no mundo, bem como de emancipar-se de  
determinantes sociais e familiares.  
Palavras-chave: José Sérgio de Carvalho, escolarização, emancipação, formação ética.  
Abstract  
This interview aims to present the reflections of the professor José Sergio de Carvalho about the role of  
school in 21st century education, in a context in which the social changes caused by the digital revolution  
raise a broad debate about the function, structuring and even the need of the school institution. José  
Sergio de Carvalho, professor of Philosophy of Education at the University of São Paulo, says that what  
makes the school an absolutely necessary institution is not so much learning - which can take place in  
other environments - as other formative attributes that neither the family nor society and other institutions  
are capable of providing. For him, school gives the subjects, among other things, the opportunity to  
expand their range of possibilities for the constitution of themselves and ethical insertion in the world as  
well as to emancipate themselves from social and family determinants.  
Keywords: José Sergio de Carvalho, schooling, emancipation, ethical education.  
Resumen  
El objetivo de esta entrevista es presentar las reflexiones del profesor José Sergio de Carvalho sobre el  
papel de la escuela en la educación del siglo XXI, en un contexto en el que los cambios sociales  
1 Universidade de São Paulo, São Paulo/SP Brasil.  
Revista Espaço Pedagógico, Passo Fundo, v. 32, e15979, 2025 | Disponível em www.upf.br/seer/index.php/rep  
 
M. A. M. da Silva Identidade, emancipação e formação ética no contexto escolar  
provocados por la revolución digital plantean un amplio debate sobre la función, estructuración e incluso  
la necesidad de la institución escolar. José Sergio de Carvalho, catedrático de Filosofía de la Educación  
de la Universidad de São Paulo, dice que lo que hace de la escuela una institución absolutamente  
necesaria e insustituible no es tanto el aprendizaje - que se puede ocurrir en variados ambientes - cuanto  
otros atributos formativos que ni la familia ni la sociedad y otras instituciones son capaces de  
proporcionar. Para él, la escolarización da a los sujetos, entre otras cosas, la oportunidad de ampliar su  
campo de posibilidades para la constitución de sí mismos y la inserción ética en el mundo, así como  
emanciparse de los determinantes sociales y familiares.  
Palabras clave: José Sergio de Carvalho, escolarización, emancipación, formación ética.  
Introdução  
A partir da segunda metade do século XX, a universalização do acesso à Educação  
Básica ao redor do mundo impôs o desafio de desenvolver processos de ensino-  
aprendizagem no interior de um contexto em que a escola deixou de ser um privilégio e  
constituiu-se como um direito, ampliando o número e a diversidade de estudantes. A  
obrigatoriedade da Educação Básica representou o imperativo de crianças, jovens e seus  
professores compartilharem um espaço-tempo de ensino, aprendizagem e convivência com  
certo grau de uniformidade, a despeito das particularidades de cada sujeito e da diversidade  
coletiva (Esteve, 2004).  
Essa nova realidade, que caracteriza a terceira revolução educacional (Esteve,  
2004), deflagrou os limites e contradições das práticas pedagógicas tradicionais, que  
apresentavam algum grau de eficiência na estrutura de transmissão-exercitação-verificação  
de conhecimentos e no cumprimento de normas aplicada a grupos mais homogêneos, mas  
que excluía alunos que não se adequavam a ela.  
Neste início do século XXI, os desafios forjados pela terceira revolução educacional,  
antes de terem encontrado solução definitiva, são atualizados e a eles se conjugam as  
demandas e contradições deflagradas pela revolução digital, tais como o acesso a  
informações em volume e velocidade inéditos; a dissolução de fronteiras entre as esferas  
pública e privada; e as mudanças no modo de produção e no mundo do trabalho. Tais  
desafios, que, para Araújo (2011), caracterizam a quarta revolução educacional, provocam  
educadores a repensar a função social da escola, os objetivos e as práticas pedagógicas,  
os tempos e espaços de aprendizagem.  
Na entrevista que se segue, José Sérgio de Carvalho, professor titular de Filosofia  
da Educação na Universidade de São Paulo, defende que a escola moderna é (e deve  
continuar sendo) um espaço-tempo cujo traço distintivo não é o aprendizado de  
conhecimentos acadêmicos. Para ele, diferentemente de outros ambientes em que o  
aprendizado é possível, a escola é o lugar no qual se concede às novas gerações um tempo  
para que possam forjar sua própria existência e seu modo de inserção no mundo mediante  
uma experiência que não reproduz (ipsis litteris) a sociedade e que suspende as  
determinações sociais e familiares sobre as crianças e adolescentes. É na escola que a  
criança se converte em aluno e, como tal, torna-se igual aos demais; é onde é exposta à  
pluralidade, visita outros mundos, expande seu campo de possibilidades, entre outras  
experiências e aquisições sobre as quais o autor discorre nesta entrevista.  
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Para José Sérgio de Carvalho, a sala de aula e os professores desempenham um  
papel fundamental nessas e em outras características que constituem a experiência escolar  
(ou processo de escolarização) e que fazem da escola uma instituição formativa única e  
insubstituível. No contexto dessa discussão, o autor afirma as diferenças entre a escola, as  
redes sociais e outros ambientes de convivência e aprendizado, e contesta projetos  
políticos como a escola sem partido e o homeshooling.  
José Sérgio de Carvalho é professor titular de Filosofia da Educação na  
Universidade de São Paulo. Foi pesquisador convidado da Universidade de Paris VII e da  
Universidade de Paris VIII, onde desenvolveu pesquisas sobre os vínculos entre política e  
educação nas obras de Hannah Arendt e Jacques Rancière. Professor Convidado da  
Universidade de British Columbia, em Vancouver (Canadá) e integrante do Grupo de  
Pesquisas "Direitos Humanos, Democracia, Política e Memória". Atualmente desenvolve  
pesquisas em hermenêutica e educação e educação e emancipação. É autor dos livros  
Educação: uma herança sem testamento Diálogos com o pensamento de Hannah Arendt  
(2017); Por uma pedagogia da dignidade Memórias e reflexões sobre a experiência  
escolar (2016); Reflexões sobre educação, formação e esfera pública (2013); Educação,  
cidadania e direitos humanos (2004), entre outros.  
Entrevista  
ENTREVISTADOR. Desde a constituição da escola moderna, a sala de aula é a  
unidade primária de espaço-tempo em que se estabelecem as relações de ensino-  
aprendizagem formal. No entanto, outros ambientes de aprendizagem têm sido, já há um  
tempo, reivindicados e utilizados nas práticas escolares, tais como a comunidade do  
entorno da escola. Mais recentemente, vemos um debate sobre o ensino remoto mediado  
por tecnologias digitais e o homeschooling, em alguns casos colocando em xeque a  
necessidade da sala de aula como espaço-tempo de aprendizagem.  
Quais são a necessidade e o papel da sala de aula na atualidade?  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Então, vou começar com uma observação lateral que  
pode até parecer um certo preciosismo, mas é algo central, pois diz respeito a essa ideia  
de que a sala de aula seria o elemento nuclear e primário da experiência escolar. E me  
parece que não. A sala de aula é um pedaço importante, sem a menor sombra de dúvida,  
mas um pedaço de algo maior, de uma experiência muito mais vasta, que eu vou chamar  
aqui e vou tentar justificar de experiência escolar.  
A escola tem sido e permanece sendo para nós algo que configura a nossa  
personalidade, que faz a gente ser quem a gente é e que opera uma série de rupturas  
absolutamente fundamentais no processo de subjetivação de uma pessoa. Acho que a  
primeira grande ruptura que a experiência escolar nos traz, e não apenas a sala de aula, é  
a transformação de uma criança em um aluno. Toda e qualquer sociedade tem crianças; só  
sociedades escolarizadas, e não a sala de aula, é que transformam uma criança em um  
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aluno. Você pode falar que esta é meramente uma questão nominal a criança ali é  
considerada aluno , mas não é bem assim.  
Transformar uma criança em aluno significa retirá-la daquela desejável, mas  
também aprisionadora, relação privada e familiar ditada pelos laços do sangue, do afeto,  
pelos lugares fixos, para introduzi-la em um outro lugar, uma outra forma de viver. Vou  
pegar alguns exemplos bastante banais. Ao transformar alguém em um aluno, a escola  
opera um tipo de igualdade que, até então, era absolutamente desconhecida. Se você é o  
filho de uma família, então você já nasce com um lugar predeterminado, o de filho. Mais do  
que isso, se você é o filho mais velho, você tem um papel, se é o filho mais novo, você tem  
outro. Esses laços te dizem mais ou menos quem você é e o lugar que você ocupa naquela  
família, e estão restritos aos laços de sangue e familiar. Isso é muito importante na nossa  
constituição como pessoa, na segurança física etc. No entanto, ao adentrar uma escola,  
você deixa de ser o filho mais velho, que tem que assumir as responsabilidades, para se  
tornar um aluno. Você tem, portanto, a chance de recomeçar uma existência a partir de um  
lugar que até então não era possível, porque os lugares estavam hierarquizados. Esse é o  
primeiro ponto fundamental.  
Um segundo ponto fundamental é que a experiência escolar, sobretudo experiências  
escolares em sistemas públicos de educação abrangentes, significa pela primeira vez uma  
certa exposição à pluralidade, e não a extensão dos valores da família. Então, por exemplo,  
do ponto de vista religioso, a escola é o único lugar onde um menino de uma família  
tradicional judaica poderia estar em contato com alguém da umbanda, com um ateu, com  
um cristão e, mais do que estar em contato, esse contato ser mediado por uma instituição  
pública que tem o dever de garantir e tem que garantir que eles sejam respeitados,  
embora não necessariamente gostem uns dos outros.  
Portanto, temos aqui a ideia de uma expansão da experiência humana muito grande.  
Para além desses fatores, tem uma coisa muito simples: o pertencimento a uma instituição  
escolar significa, em alguma medida, um exercício de escolha e ajuizamento. Você não  
escolheu quem são seu pai, sua mãe, seus irmãos, mas você, na escola, escolhe quem  
são os seus amigos, que podem ser de outras classes sociais, ter outros credos religiosos,  
outras origens étnicas.  
Enfim, essa primeira ruptura é de uma ampliação do domínio das relações, que vai  
para muito além da sala de aula. A escola significa recreio, trabalho em grupo na casa das  
pessoas. A experiência escolar significa você se apaixonar por alguém que seria inusitado,  
que não pertence ao seu meio, que não tem os mesmos credos. Portanto, a experiência  
escolar nos introduz na pluralidade como marca da vida humana, de uma vida humana feita  
por seres absolutamente singulares, que não precisam se fundir num todo, mas precisam  
aprender a viver juntos uns com os outros.  
A experiência escolar é também uma grande experiência de liberdade, por essas  
mesmas razões. Uma experiência de liberdade porque é muitas vezes na escola que você  
sai do lugar de criança para se transformar em aluno, que sai de um convívio restrito para  
um convívio mais amplo, que você pode operar uma certa desidentificação, um processo  
de subjetivação no qual você é capaz de superar algo que lhe foi dado e conquistar um  
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lugar que lhe é muito próprio. Por exemplo, é na escola que o filho do traficante da  
comunidade lê poesia. A poesia não é algo que a gente identifica como próprio para uma  
comunidade violenta, mas se você está numa comunidade e leu uma poesia na escola,  
você retira a ideia de que a poesia é própria para certas pessoas e não para outras. Então,  
o pertencimento a uma instituição escolar significa a possibilidade. Não necessariamente  
isso acontece, mas significa a possibilidade de desidentificação das pessoas com lugares  
previamente marcados: quando o filho do traficante não é filho do traficante, ele é um aluno;  
quando o filho do comerciante rico daquela comunidade não é filho do comerciante, mas é  
um aluno; quando o filho daquela mulher que é iletrada não é filho de uma analfabeta, é um  
aluno. E, na qualidade de aluno, ele tem a possibilidade o que não quer dizer que ele vai  
fazer isso, que ele vai querer isso de fazer uma disjunção entre o que ele vive aqui agora  
e o seu passado.  
Não fosse a experiência escolar, todas as crianças estariam fadadas,  
provavelmente, à mera reprodução da profissão do seu pai, do seu lugar social, de um  
modo de vida. Ora, é na escola, portanto, que eu tenho condições de estar no meio dessa  
pluralidade de professores, de alunos, de experiências da educação física, de experiências  
de arte, e sou capaz de descobrir algo que até então não me era familiar.  
ENTREVISTADOR. Você considera que é necessário redefinir a sala de aula? E  
aproveito para acrescentar outra pergunta, que, em parte, me parece que você já  
respondeu: no que a sala de aula se distingue de outros ambientes de aprendizagem,  
estejam dentro ou fora da escola?  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. A sala de aula precisa de uma de redefinição? Claro,  
toda e qualquer tradição viva precisa, senão ela não permanece viva, só permanece  
idêntica.  
Agora, o que há de específico numa sala de aula, aqui há uma coisa muito linda. A  
sala de aula é um lugar que se separa da lógica da vida. E é bom que assim seja. Eu não  
sei por que algumas pessoas gostam tanto que a escola seja uma cópia, uma extensão do  
mundo tal como ele é. A não ser, claro, que você creia que este mundo no qual vivemos  
seja tão maravilhoso que não seria o caso de fazer um parêntese e falar “aqui vige outra  
regra”. Então, o espaço da sala de aula é um espaço no qual o mundo da gente — por  
exemplo, no caso do Brasil, marcado pela violência pode ser um mundo mediado pela  
palavra, como oposição ao mundo marcado pela violência. Em um mundo no qual quem  
manda é o valor de troca, do dinheiro ou do uso, a sala de aula é o lugar onde cabe poesia.  
Qual é o uso da poesia? Ela não tem uma utilidade prática imediata na vida, mas ela tem  
um lugar na sala de aula.  
E, mais do que isso, a sala de aula é o lugar no qual o erro cabe, que nos permite  
refazer, recomeçar. Aprende-se a mexer em um motor em uma oficina que forma mecânicos  
e se aprende a mexer em um motor na sala de aula, em uma aula de mecânica. Qual é a  
grande diferença da sala de aula? Se você for um aprendiz na oficina, você não pode errar.  
Se errar na colocação de uma peça, tem que pagar por ela. Na sala de aula, não. Se o  
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aluno erra, o professor fala: “Faz de novo”. Ele erra e o professor fala: “Faz de novo, tenta,  
você é capaz”.  
Agora, claro, ela está no meio do mundo. Ela cria uma certa autonomia em relação  
ao mundo, mas dialoga com o mundo e, nesse sentido, é claro que ela não pode ignorar o  
que está acontecendo no mundo. No entanto, acreditar que a sala de aula teria que  
acompanhar um ritmo que não é o da escola é deixar-se levar por uma universalização do  
particular. O que eu quero dizer com isso? No nosso mundo tecnológico, as coisas se  
transformam em obsoletas muito rapidamente. Esse celular que eu tenho há dois anos já  
está obsoleto. Agora a sala de aula é um lugar no qual um romance escrito há 50 anos ou  
uma peça de teatro escrita há 500 ou uma tragédia escrita há 2.500 anos continuam  
valendo. A sala de aula não é só o que boia na superfície do presente, é o que tem valor.  
Que outro espaço social que não a escola talvez alguns espaços de arte são capazes  
de promover em nós esse pertencimento ao tempo, independentemente do modismo?  
A outra coisa é o tempo da sala de aula. Onde tudo tem que ser muito rápido,  
apressado, a sala de aula pode ser lenta, ela pode ter um ritmo próprio. Então eu acho que  
essas inovações podem ser muito bem-vindas, desde que não destruam aquilo que é  
específico da experiência escolar e da sala de aula como um dos elementos da experiência  
escolar.  
ENTREVISTADOR. Chamou minha atenção a sua contraposição à ideia da sala de  
aula como unidade primária de espaço-tempo das relações de ensino-aprendizagem. Claro  
que afirmar isso não significa ignorar que a experiência escolar é muito mais ampla do que  
a sala de aula. Há, além da sala de aula, a interação dos estudantes em outros espaços,  
há uma cultura escolar que se constitui pelo conjunto de práticas curriculares e não  
curriculares, na qual as salas de aulas estão inscritas. Portanto, não significa dizer que ela  
é o cerne da escolaridade.  
Mas o enunciado inicial da primeira pergunta passava por essa definição justamente  
por considerar que a sala de aula é um espaço em que as relações de ensino-aprendizagem  
se estabelecem de forma intencional, mais direta e com mais permanência e  
sistematicidade do que em outras experiências escolares, tendo em vista que a maior parte  
do tempo que o aluno passa na escola, ele passa em uma sala de aula. E não se trata de  
uma experiência uniforme, pois há trocas entre professores, o contato com diferentes  
pontos de vista, diferentes áreas do conhecimento e experiências de ensino-aprendizagem.  
No entanto, tudo isso acontece predominantemente nesse espaço-tempo não só material,  
mas simbólico, que é a sala de aula.  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Quero chamar a atenção para o fato de que, embora  
essa posição seja quase um consenso, eu tenho uma posição dissensual em relação à  
maior parte dos meus pares, inclusive no campo da Filosofia da Educação. Eu sequer creio  
que a grande questão da escola, da invenção da escola e sobretudo do desenvolvimento  
da instituição escolar moderna não tenha a ver com aprendizagem. A experiência é muito  
maior, é muito mais marcante em relação a outra experiência que não a da aprendizagem.  
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Essa outra experiência está contida na própria noção da palavra scholé, que vem do grego  
e significa tempo livre.  
Tempo livre aqui não quer dizer um tempo de desocupação, quer dizer estritamente  
o tempo que você está liberado de ter que participar da própria produção da subsistência.  
Vou dar um exemplo muito simples, um anterior e um atual. Meus avós paternos eram  
imigrantes portugueses analfabetos, não porque fossem pouco inteligentes ou tivessem  
pouca capacidade de aprendizagem. Minha avó, por exemplo, desenvolveu uma escrita  
própria porque ela administrava uma quitanda em um bairro periférico suburbano de São  
Paulo e tinha cadernetas, que as pessoas iam comprando e só pagavam no final do mês.  
Ela fazia uma escrita que era quase ideográfica, ela tinha uma marca para cada pessoa e  
aprendeu os números. Era uma pessoa com extrema capacidade de aprendizagem, mas  
não tinha tempo livre, porque a minha avó, aos 5 anos de idade, cuidava de ovelhas, cortava  
o seu pelo, fazia cobertores, plantava, cuidava de tudo. Portanto, não tinha tempo livre. A  
situação da scholé significa garantir a todos tempo livre para se constituírem como pessoas,  
num tempo em que não precisam lutar pela sobrevivência.  
A escola, mais do que tudo, é uma experiência existencial, de ter um tempo para si.  
Para ter experiências, experiências que vão te informar, para ter uma troca de experiências.  
A escola é sobretudo um lugar onde há uma transmissão intergeracional, não é o mero  
aprendizado de viver, de coisas úteis, é onde as gerações se encontram e podem passar  
umas às outras o que aprenderam. Não que as outras gerações vão repetir, a gente nunca  
é uma repetição do passado, mas a gente nunca começa do zero. Então, é nesse sentido  
que eu falo que escola é mais que uma sala de aula, é a transmissão de experiência, mais  
do que aprendizagem.  
ENTREVISTADOR. A revolução digital trouxe consigo a ampliação das trocas entre os  
conhecimentos, visões de mundo e costumes de diferentes culturas e grupos sociais. As  
redes sociais, nesse contexto, têm sido um palco de intercâmbios, debates e disputas sobre  
moralidade, política, entre outros temas de importância pública. Durante muito tempo a  
escola foi, para crianças e adolescentes, o principal espaço de socialização e convivência  
com o diferente. Isso mudou?  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Vou começar com uma observação sobre as redes  
sociais. Eu concordaria muito com você que as redes sociais são lugares de disputa. Tenho  
as minhas restrições de imaginar que elas sejam um lugar de intercâmbio. E as redes  
sociais operam em uma lógica completamente distinta da escolar. As redes sociais operam  
pela lógica da identificação, pois te dão mais do mesmo. Ora, a grande chance que a escola  
oferece não necessariamente, mas potencialmente é, como eu te dizia, de  
desidentificação. O que é desidentificação? Oferecer a possibilidade de você habitar um  
outro mundo com o qual inicialmente não se identifica. As redes sociais te mandam  
conversar com os semelhantes.  
Vou pegar um exemplo. Minha filha, muito recentemente, ao ler Harry Potter, chegou  
numa determinada tarde com os olhos cheios de lágrimas, chorando, literalmente, e  
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falando: “Pai, eu preciso ler esse pedaço”. É um pedaço em que um dos amigos mais  
próximos de Harry Potter havia encontrado o seu pai e sua mãe, que haviam sido torturados  
não até a morte, mas até a completa desfiguração como pessoa. Eles perderam toda a  
memória, viraram um organismo vivo sem nenhuma identidade. Eu te pergunto: ela não  
sabe que é uma ficção? Sabe, ela sabe o que é uma ficção e que o mundo dos bruxos não  
existe. Mas por que ela chora? Ela chora porque ela vive esse outro mundo, e quando ela  
volta desse outro mundo, percebe que naquele mundo existiam os comensais da morte, e  
que nesse mundo que ela vive os nossos tiranos se alimentam da morte. Ela percebe que  
a resistência de lá era feita numa casa que chamava-se “a ordem de Fênix”, esse pássaro  
que levanta voo, mas ao fim do dia se queima, vira cinzas e amanhã volta a levantar voo,  
como todos nós, que lutamos contra qualquer regime totalitário. Passamos a vida nisso e  
quando a gente acha que nunca mais vai voltar, ele volta. Tal como o Valdemort, o vilão,  
que é quase destruído, que não tem mais corpo, mas sobra alguma coisa que entra num  
outro corpo, revive e nós somos obrigados a lutar.  
A escola nos apresenta esses mundos que não são necessariamente os mundos  
com os quais nos identificamos imediatamente, mas que nos propiciam justamente a  
capacidade de voltar para esse nosso mundo e dar um novo sentido, porque a gente passou  
por uma outra experiência, e uma experiência pela qual muitas vezes não teríamos passado  
se não fosse a escola.  
Então, a lógica das redes sociais é dar para você aquilo que você quer para  
consumir. A rede social vive de likes. Se eu for fazer a escola trabalhar como uma rede  
social, vou querer medir quantos likes têm os professores. Ocorre que muitas vezes a gente  
só descobre que um professor é fundamental na nossa vida dez anos depois.  
ENTREVISTADOR. Muito embora você já tenha passado por essa discussão, eu  
gostaria que você explorasse mais a seguinte pergunta: no que a internet e as redes sociais  
se aproximam ou se diferenciam da escola quando pensamos na educação em valores e  
para a cidadania?  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho que essa resposta se encontra no sentido da  
escola e de um professor, sobretudo de um professor que encara o significado público que  
toda escola tem inclusive a escola privada, pois a escola privada é uma concessão  
pública. Os valores que guiam a educação não são valores individuais, subjetivos. Uma  
escola até pode ter os próprios valores, mas eles não podem se confrontar com os valores  
públicos que regem a nossa ordem constitucional. E o professor, ali, representa esses  
valores. E, nesse sentido, a experiência escolar é importante para o cultivo desses valores  
justamente porque existe alguém ali que encarna e faz essa mediação, de tal forma que  
certas coisas que são possíveis nas redes sociais devem ser impossíveis na escola, por  
exemplo, todas as falas de ódio, todas as falas de discriminação racial. Um professor que  
cumpre esse seu papel público interfere diretamente.  
Então, por exemplo, um menino que faz uma fala racista com 5 anos de idade. Eu  
tenho que ir lá e intervir: “Não, meu caro, aqui não pode ser assim”. Se repete isso aos 7  
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anos, eu vou repetir que não pode ser assim, aos 10 eu vou continuar repetindo e aos 17,  
no terceiro ano do Ensino Médio, eu vou dizer a mesma coisa. Quer dizer, a scholé, como  
tempo de formação, me indica isto: eu ainda não considero aquele sujeito formado, não  
importa se ele é ou não é racista, eu não considero. Aos 18 anos, na praça pública, se ele  
pratica um ato racista, eu chamo a polícia e abro um boletim de ocorrência; acabou a  
formação, acabou a scholé, o tempo. Agora responda pelos seus atos. A scholé tem a ver  
com isso, com o tempo que fala assim: “O mundo é tão complexo, que eu estou operando  
na sua formação, você ainda não responde plenamente pelo mundo”.  
E um outro papel é o do ajuizamento. Não é de pouca importância você habitar  
outros mundos. Olha, você consegue viver essa experiência e, portanto, ajuizar de um  
ponto de vista muito mais alargado, considerando o outro. Isso é fundamental na ordem da  
cidadania.  
E também há as práticas. Ética vem do grego e quer dizer costume, hábito. Em uma  
passagem da Ética a Nicômaco, Aristóteles (2009) fala que as virtudes morais, assim como  
as virtudes intelectuais, são disposições do espírito. E disposições são como uma segunda  
natureza que nós adquirimos pelo exercício. A frase dele é “tornamo-nos construtores de  
barcos construindo barcos e assim também tornamo-nos homens justos e sábios praticando  
ações justas e sábias”. É menos o que a escola fala. Uma escola para a cidadania é um  
ambiente público escolar para a cidadania. É um ambiente que garante, por exemplo, a  
igualdade no tratamento dessas pessoas. Não precisa falar da igualdade, é realizar esse  
espírito, esse exercício da igualdade. Por isso não só o discurso dos professores, mas as  
práticas são fundamentais. E, claro, de novo, as redes sociais são pautadas pelo espírito  
da distinção, da diferença, é sobre o que eu consumo para me diferenciar do outro.  
ENTREVISTADOR. Voltando ao tema da revolução digital, as crianças e jovens têm  
acesso fácil e quase imediato a um grande volume e a uma diversidade de informações,  
incluindo aulas e tutoriais disponíveis na internet. Tal fato tem reforçado o argumento das  
perspectivas pedagógicas que se opõem ao dito “ensino tradicional”, segundo as quais o  
professor deve ser menos um transmissor de conteúdos e mais um mediador na construção  
de competências como a autonomia e o pensamento crítico. Mas também é possível  
questionar se a seleção de materiais, objetivos e metodologias, assim como a autoridade  
dos professores sobre os alunos, que caracterizam o modus operandi da maioria das  
escolas — incluindo aquelas que se opõem ao “ensino tradicional” —, não representariam  
um entrave à construção da autonomia e do pensamento crítico.  
Como você vê o papel dos professores nesse contexto? Na sua perspectiva, como  
autonomia e pensamento crítico devem ser concebidos na relação professor-aluno?  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho que tem várias coisas a se falar. A primeira é essa  
questão de crer que a formação do espírito crítico dependeria da disponibilidade da  
informação. Não é apenas a transmissão de informações e o desenvolvimento de  
capacidades e habilidades, até porque tem-se uma enorme massa de informações na  
internet, dentre as quais informações non sense e fake news. A questão é a gente ser capaz  
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de ajuizar o que faz ou não sentido e se uma informação é ou não verdadeira. E a  
escolarização tem um papel fundamental nisso.  
O segundo ponto diz respeito à transmissão. Eu queria só deixar claro que essa  
palavra é uma palavra que se tornou maldita no vocabulário pedagógico e uma palavra que  
eu adoro. Por quê? A transmissão tem sido equacionada ou equiparada à comunicação que  
transcende o espaço. Essa comunicação nós temos em comum com os bichos, mas  
nenhum deles transmite saberes, valores, princípios e condutas ao longo do tempo. A  
transmissão simbólica não transcende o espaço, transcende o tempo. Então, escola é  
transmissão, sim, não é simples comunicação. Mas ela é transmissão de uma herança  
simbólica e o papel do professor é, sim transmitir, não é simplesmente comunicar. As redes  
comunicam, os professores transmitem e há aí uma clara diferença.  
Quanto à questão da formação do espírito crítico, eu gosto que você traga essa  
questão porque esse é um consenso vazio das nossas escolas. A partir dos movimentos  
de rebelião de 1968, todas as escolas adotam o vocabulário do formar um aluno crítico.  
Ocorre que essa expressão padece de uma anemia semântica, não quer dizer mais nada,  
perdeu completamente o sentido. As escolas devem querer formar um aluno crítico. Agora,  
o que cada uma dessas instituições crê que seja o espírito crítico e como fomentá-lo? Bom,  
aí o que era consenso vira uma profunda divergência, certo?  
O criticismo tem a ver com uma atitude, não com conteúdo. Ele tem a ver com essa  
capacidade que nós temos de pôr em questão o que até certo momento era evidentemente  
fora de questão. E a pergunta então é: como se transmite esse espírito crítico? Me parece  
que não há outro jeito a não ser convivendo com quem o tem e encontrando sua própria  
maneira a partir dessa referência. Há uma frase do Michael Oakeshott, um filósofo inglês  
do século XX, que diz: “Não é o grito, mas é o voo do pássaro que faz com que o bando o  
siga”. Ou seja, são as práticas críticas de um professor que fomentam em seus alunos um  
espírito crítico, não é o conteúdo, não é a metodologia, não é a técnica; são as pessoas, é  
a convivência com as pessoas. E não há outro lugar para se conviver com tantas pessoas  
quanto as escolas, sobretudo as públicas, que acolhem as pessoas por um concurso  
público, que não importa qual seja a sua religião, sua origem social, você passou e eu terei  
condição de conviver com essa pluralidade de seres humanos absolutamente singulares.  
Por último, mas ligado a isso, tem a questão da autonomia, que também virou um  
chavão escolar, né? E, claro, o que a gente quer sempre é formar alguém autônomo, que  
faça por si mesmo o seu soneto, que faça uma interpretação ao piano que é própria. O  
problema é que esse é o objetivo, mas como é que eu chego lá? Eu não sei direito, mas  
posso dizer o seguinte: eu não posso tomar o objetivo com um ponto de partida. Guimarães  
Rosa, por exemplo, é um cara que teve uma capacidade crítica e autônoma no trato com a  
língua portuguesa invejável, inventa coisas fenomenais. Para te dar um exemplo banal, a  
palavra “só” em português tem o mesmo significado que na maior parte das outras línguas.  
Mas a gente inventou uma coisa linda chamada “sozinho”, e veja que o “sozinho”, para além  
do desacompanhado, dá uma ideia de abandono, só que pouco a pouco a nossa língua  
acabou equiparando “sozinho” e “só”, como se fossem a mesma coisa. Aí o Guimarães  
inventa a expressão “sozinhoinho”. Você percebe o que ele faz? Ele cria. Agora, ele só  
Revista Espaço Pedagógico, Passo Fundo, v. 32, e15979, 2025  
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M. A. M. da Silva Identidade, emancipação e formação ética no contexto escolar  
pode criar sobre uma língua que ele aprendeu sem ter pedido, à qual ele se dedicou, que  
ele conhece profundamente e aí ele está em posição de criar.  
Portanto, não há necessariamente nenhum tipo de contraposição entre uma coisa e  
outra. Autonomia é um ponto de chegada. Agora, postular como um ponto de partida, dizer  
que a criança já é autônoma? Sim e não, mas, no geral, não. Você pode fazer uma dialética  
entre dar um pouco e soltar. Essa é uma questão muito particular que cada um na sua sala  
de aula vai colocar, mas acho sempre bom a gente expressar que autonomia é o ponto de  
chegada, que esse ponto de chegada pressupõe necessariamente a aceitação de algo que  
nós não escolhemos.  
ENTREVISTADOR. Concordo com a ideia de que o pensamento crítico e a autonomia  
tornaram-se chavões e que é incontornável que a escola e os educadores façam escolhas  
que não passam pelo consentimento dos estudantes, por exemplo, sobre quais valores irão  
orientar a formação ética e moral, pois nem todos são igualmente legítimos quando se trata  
de responder às necessidades e desafios de compartilhar o mundo com outras pessoas.  
Por outro lado, na minha perspectiva, tanto a autonomia quanto o pensamento crítico  
passam pela oportunidade de transitar por diferentes mundos, por ampliar as referências e  
contrastá-las e, assim, alargar o campo de possibilidades para a constituição da identidade  
e inserção no mundo.  
JOSÉ SÉRGIO DE CARVALHO. Acho essa observação bem importante, em dois  
sentidos. O primeiro está relacionado a uma pergunta que você fez em que cita o  
homeschooling. Então, veja, a primeira grande questão é a seguinte: todo mundo tem uma  
ideia sobre como se desenrolou a história do Brasil, sobre a sua colonização, escravidão  
etc. O homeschooling significa você estar preso à visão que os seus pais têm. Se você vai  
para escola, não tem como. Se você tiver cinco professores de história, você não vai ter  
cinco que pensam a mesma coisa. Só a loucura dos entusiastas da “escola sem partido”,  
que acham que há um monobloco ideológico. A pluralidade de visões é uma propriedade  
da instituição escola, não do indivíduo professor, sobretudo, eu insisto, da instituição  
escolar pública.  
Acho que isso é fundamental e que isso é próprio da escola. São poucas as  
instituições que proporcionam isso. Você não pode esperar isso da igreja, não pode esperar  
isso do exército. É outra lógica de funcionamento. Então, uma coisa que eu sempre falo é  
a seguinte: vocês mandam lá nas igrejas, mandam no exército, agora não venham  
militarizar a escola. Eu não vou academicizar a formação de cadetes. Não seria plausível  
que quando um general, no meio da guerra, dissesse “Atacar!”, alguém levantasse a mão  
e falasse: “Eu gostaria de discutir o pressuposto”. É isso que eu espero do aluno, não é o  
que o general espera do soldado. Então, deixa a gente aqui na escola porque aqui vige  
outra lógica.  
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