M. A. M. da Silva – Identidade, emancipação e formação ética no contexto escolar
aluno. Você pode falar que esta é meramente uma questão nominal — a criança ali é
considerada aluno —, mas não é bem assim.
Transformar uma criança em aluno significa retirá-la daquela desejável, mas
também aprisionadora, relação privada e familiar ditada pelos laços do sangue, do afeto,
pelos lugares fixos, para introduzi-la em um outro lugar, uma outra forma de viver. Vou
pegar alguns exemplos bastante banais. Ao transformar alguém em um aluno, a escola
opera um tipo de igualdade que, até então, era absolutamente desconhecida. Se você é o
filho de uma família, então você já nasce com um lugar predeterminado, o de filho. Mais do
que isso, se você é o filho mais velho, você tem um papel, se é o filho mais novo, você tem
outro. Esses laços te dizem mais ou menos quem você é e o lugar que você ocupa naquela
família, e estão restritos aos laços de sangue e familiar. Isso é muito importante na nossa
constituição como pessoa, na segurança física etc. No entanto, ao adentrar uma escola,
você deixa de ser o filho mais velho, que tem que assumir as responsabilidades, para se
tornar um aluno. Você tem, portanto, a chance de recomeçar uma existência a partir de um
lugar que até então não era possível, porque os lugares estavam hierarquizados. Esse é o
primeiro ponto fundamental.
Um segundo ponto fundamental é que a experiência escolar, sobretudo experiências
escolares em sistemas públicos de educação abrangentes, significa pela primeira vez uma
certa exposição à pluralidade, e não a extensão dos valores da família. Então, por exemplo,
do ponto de vista religioso, a escola é o único lugar onde um menino de uma família
tradicional judaica poderia estar em contato com alguém da umbanda, com um ateu, com
um cristão e, mais do que estar em contato, esse contato ser mediado por uma instituição
pública que tem o dever de garantir — e tem que garantir — que eles sejam respeitados,
embora não necessariamente gostem uns dos outros.
Portanto, temos aqui a ideia de uma expansão da experiência humana muito grande.
Para além desses fatores, tem uma coisa muito simples: o pertencimento a uma instituição
escolar significa, em alguma medida, um exercício de escolha e ajuizamento. Você não
escolheu quem são seu pai, sua mãe, seus irmãos, mas você, na escola, escolhe quem
são os seus amigos, que podem ser de outras classes sociais, ter outros credos religiosos,
outras origens étnicas.
Enfim, essa primeira ruptura é de uma ampliação do domínio das relações, que vai
para muito além da sala de aula. A escola significa recreio, trabalho em grupo na casa das
pessoas. A experiência escolar significa você se apaixonar por alguém que seria inusitado,
que não pertence ao seu meio, que não tem os mesmos credos. Portanto, a experiência
escolar nos introduz na pluralidade como marca da vida humana, de uma vida humana feita
por seres absolutamente singulares, que não precisam se fundir num todo, mas precisam
aprender a viver juntos uns com os outros.
A experiência escolar é também uma grande experiência de liberdade, por essas
mesmas razões. Uma experiência de liberdade porque é muitas vezes na escola que você
sai do lugar de criança para se transformar em aluno, que sai de um convívio restrito para
um convívio mais amplo, que você pode operar uma certa desidentificação, um processo
de subjetivação no qual você é capaz de superar algo que lhe foi dado e conquistar um
Revista Espaço Pedagógico, Passo Fundo, v. 32, e15979, 2025
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